Valinhos/SP -

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

DEU NAIMPRENSA: Matéria publicada nos jornais dias 19 e 20/11
Consciência negra, consciência de injustiças.
 “Estamos comemorando em Valinhos o Dia da Consciência Negra. Vejo aí uma homenagem, mas, acima de tudo, uma oportunidade para se pensar em injustiças sociais. Eu, particularmente, não gosto que datas determinem o momento de homenagens, pois acho, por exemplo, que todos os dias são das mães, dos pais, das crianças, dos idosos, dos aposentados. Um país desenvolvido, e cidades progressistas, dedicam-se ao bem estar social todos os dias, promovendo chances para todos, criando igualdade de oportunidades”.
Aproveito porém esta data para lembrar que, apesar de toda sorte de cativeiros, pressões e injustiças, os negros escreveram grandes capítulos de nossa história e enriqueceram maravilhosamente nossa cultura. Este país moreno, protegido por uma padroeira negra, tem como o maior expoente de sua literatura o mulato Machado de Assis. Tem também o poeta parnasiano Cruz e Sousa, o tribuno José do Patrocínio, os dois maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Pelé e Leônidas da Silva – este, o ‘diamante negro’, que virou marca e nome de chocolate. E mais centenas de pessoas brilhantes. A música brasileira tem uma infinidade de nomes. Quem não gosta de samba, bom sujeito não é... Ataulfo, Pixinguinha, Cartola, Clementina... A rica culinária tem os ingredientes da criatividade negra, a começar pela feijoada. Todos sabemos disso.
A saga do sofrimento negro, da escravidão, ajudou a avisar os brancos sobre as injustiças que eles também sofriam. Se lembrarmos de nossa guerra contra o Paraguai, teremos que lembrar que brancos e negros estiveram na linha de frente. Aliás, a simpatia dos militares pelos negros se fortaleceu aí, o que mais tarde influiria também na Abolição. Muitos militares se recusaram a serem capitães do mato, isto é, recusaram-se a procurar escravos fugitivos. Mas depois da Guerra do Paraguai, que vencemos apesar das perdas humanas e das dívidas contraídas, não foi cumprida a promessa de que, na volta, nossos guerreiros teriam como prêmio casas para morar. Promessa não cumprida e sem ter onde morar, brancos e negros foram morar nos morros do Rio de Janeiro, onde se plantava um feijão chamado favela, do mesmo tipo do feijão fava. Daí, o nome favela... Quem criou a favela, da forma como a conhecemos hoje, foi o governo!
Pensam que os negros foram libertados pelo coração bondoso da Princesa Isabel, como querem muitos historiadores? Uma ova! Ocorre que a Revolução Industrial já havia começado na Inglaterra e os ingleses perceberam que libertando os escravos, estes passariam a ser assalariados e poderiam comprar os produtos manufaturados que chegavam ao Brasil vindos da Inglaterra. Os negros também ficaram livres dos grilhões da escravidão porque os seus proprietários perceberam que após a Revolução Industrial tinham mais opções de investimento, além da compra de escravos: podiam agora investir nas nossas nascentes estradas de ferro, nos bancos e nas indústrias.
A história de nossos negros nos ensina muito. Ensina sobretudo a enxergar por trás de aparentes benefícios o interesse dos poderosos. Isso vale para todas as raças.